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Out

Mais de 100 crianças portuguesas com paralisia cerebral podem melhorar a sua qualidade de vida através de uma cirurgia para colocação de uma bomba de infusão de medicamento que pode reduzir a espasticidade, que se caracteriza por rigidez muscular que dificulta ou impossibilita o movimento, em especial dos membros inferiores e superiores. Estima-se que 80 entre cada 100 pacientes de paralisia cerebral têm espasticidade.



No entanto, ainda não existe um Hospital em Portugal que execute esta cirurgia em crianças com paralisia cerebral com menos de 16 anos, apesar do vasto número de crianças com indicação médica para serem sujeitas a esta terapia, alerta a Dra. Graça Andrada, presidente da Federação das Associações Portuguesas de Paralisia Cerebral (FAPPC).



As principais razões apontadas para ainda não se realizar esta cirurgia em Portugal são a inexistência de uma equipa multidisciplinar de profissionais de saúde preparados e motivados para aplicar esta técnica cirúrgica em crianças com paralisia cerebral, mas também a falta de verbas dos hospitais portugueses.



De acordo com o Dr. José Brás, neurocirurgião do Hospital dos Capuchos, “é preciso incentivar os hospitais pediátricos a criar condições que possibilitem o acesso a esta cirurgia. Apesar de ser um procedimento relativamente simples, não existem ainda, em Portugal, médicos familiarizados e com treino para aplicar a técnica em crianças.”



A médica pediatra e especialista em reabilitação, Dra. Graça Andrada, sugere ainda que, “deveria haver nos principais hospitais do país com serviços de neuropediatria e neurocirurgia nas regiões de Lisboa, Porto e Coimbra, a possibilidade de realização de algumas cirurgias em cada ano às crianças com paralisia cerebral que possam beneficiar desta intervenção. Só assim será possível começar a analisar os benefícios para as crianças com paralisia cerebral.”



“O número de cirurgias em cada ano não seria muito elevado pelo que a questão de falta de verbas não deverá ser um entrave. Estamos a negligenciar os cuidados às crianças com paralisia cerebral, no nosso país, em comparação com o que se passa noutros países da União Europeia e nos Estados Unidos” explica a Dra. Graça Andrada.



A cirurgia de tratamento da espasticidade consiste na colocação de uma pequena bomba de infusão de medicamento, implantada por baixo da pele do abdómen e que administra continuamente doses de medicação de forma precisa, de forma a permitir o controlo da espasticidade do doente, explica o Dr. José Brás, neurocirurgião do Hospital dos Capuchos.



Como o medicamento é administrado directamente no local onde este é necessário diminui a possibilidade de ocorrência de efeitos secundários como náuseas, vómitos, sonolência, confusão, problemas de memória e de atenção, e é muito mais eficaz do que a medicação oral.



O especialista médico adianta ainda que a bomba de infusão de medicamento implantada diminui a frequência dos espasmos, dor e fadiga, aumenta a mobilidade do doente e pode melhorar as suas funções e actividades diárias. Se for disponibilizada no momento certo, esta terapia pode reduzir as necessidades de cirurgias ortopédicas futuras.



De acordo com a Dra. Graça Andrada esta terapia permite que algumas crianças possam ter uma qualidade de vida melhor e, se for realizada entre os 6 a 12 anos, evita também as deformidades quando se tornam adultas. Desta forma, ao permitir o acesso a esta cirurgia, estaremos a prevenir complicações futuras que, para além do sofrimento humano, obrigam a custos superiores com medicação, cirurgias ortopédicas e reabilitação.



A espasticidade afecta, negativamente, os músculos e as articulações das extremidades, causando movimentos e posturas anormais e é especialmente prejudicial nas crianças em crescimento.



Os sintomas podem variar desde uma leve contracção até uma deformidade severa. A impossibilidade de controlar os músculos voluntários poderá aumentar o grau de dificuldade para realizar actividades diárias tais como vestir, comer, escovar os dentes ou os cabelos, e portanto, reduzir a funcionalidade e participação da criança, jovem e adulto com paralisia cerebral.



A paralisia cerebral caracteriza-se por uma perturbação do controlo da postura e movimento, como consequência de uma lesão cerebral que atinge o cérebro em período de desenvolvimento. Todos os anos surgem, aproximadamente, 200 a 250 novos casos de paralisia cerebral em Portugal.




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