10
Dez
A maior parte dos doentes mentais vive trancada em casa com medo de ser magoada pelos outros. A discriminação continua a existir e é contra isso que Maria João luta diariamente, ajudando estas pessoas a inserirem-se na comunidade.

No Dia Nacional dos Direitos Humanos, assinalado hoje, Maria João Neves, da Rede Nacional das Pessoas com Doença Mental, vai apelar à aplicação da Lei da Não-Discriminação à Saúde Mental num encontro promovido pelo Instituto Nacional de Reabilitação (INR) e pela Coordenação Nacional para a Saúde Mental (CNSM).

O estigma e a discriminação perseguem estes doentes. Uma simples ida a um café pode tornar-se doloroso: "tratam-nos de maneira diferente, não nos servem à mesa ou deixam-nos para último lugar", conta à agência Lusa Maria João.

Para prevenir e combater a exclusão social destas pessoas, a Rede Nacional de Pessoas com Experiência de Doença Mental apoia a sua integração na comunidade através de emprego, educação e habitação.

"A nossa associação trabalha em termos de projecto de vida. Não vamos fazer cinzeirinhos de barro, nem bonequinhas de pano, nem vamos estar a olhar para a televisão e fumar o dia inteiro. Estamos ali para realizar o projecto da nossa vida na comunidade", salienta Maria João.

A Rede ajuda as pessoas a sair das instituições para a vida na comunidade de modo a que possam ter acesso aos serviços que são prestados a qualquer pessoa, independentemente de terem ou não doença mental, explica.

Actualmente, a associação apoia cem pessoas. Muitas delas estão a trabalhar e são bem remuneradas, outras estão a frequentar universidade e as Novas Oportunidades e outras a fazer o mestrado, conta.

O coordenador nacional para a Saúde Mental lamenta, por seu turno, que as pessoas com doença psiquiátrica continuem a ser vítimas de discriminações.

"Em Portugal, e em muitos outros países, o facto de uma pessoa sofrer de uma doença psiquiátrica constitui um motivo de discriminação a nível laboral muito significativo", disse Caldas de Almeida à Lusa.

Caldas de Almeida conta que há pessoas com depressão que se sentem obrigadas a esconder que estão doentes com medo que isso possa ser utilizado contra elas no meio laboral.

"Ainda há muitas ideias erradas sem qualquer fundamento científico, como a de estas pessoas serem violentas", frisa, comentando que "isso pode acontecer em casos muito específicos, mas não na generalidade dos casos".

Mas há outras ideias erradas, como "a pretensa impossibilidade de as pessoas com doenças psiquiátricas terem um trabalho produtivo, de terem uma reabilitação que as leve a participar a nível social e a casar ou ter filhos", acrescenta.

"É muito importante podermos aproveitar oportunidades como esta [Dia dos Direitos Humanos] para disseminar informação mais correcta sobre o que de facto são as doenças mentais e as suas consequências e as possibilidades que há a nível de tratamento e reabilitação", salienta.

Durante o encontro vai ser lançado o Guia para a Defesa dos Direitos em Saúde Mental que aborda a defesa dos direitos em saúde mental e divulga distintos modos em que as pessoas se podem manifestar, expressar as suas opiniões e defender os seus interesses.
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