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Dez
 
Quando é o talento a fazer a diferença
 
Saravá, grupo formado por três jovens com paralisia cerebral, apresenta hoje (18 de Dezembro) o disco de estreia no Porto. Hip-hop, funk e pop são os géneros de eleição do projecto formado há cinco anos, já premiado em festivais.

Pedro (teclas), Jorge (sintetizador) e Bruno (voz) são utentes do Centro de Paralisia Cerebral do Porto e formaram os Saravá há cinco anos, orientados pelo músico Sérgio Silva

Já ganharam festivais da canção e pisaram palcos marcantes como o da Casa da Música sem que o nervosismo desse sinais de si, mas hoje, sexta-feira, às 11 horas, quando lançarem, no Centro de Paralisia Cerebral do Porto, o ansiado disco de estreia, a sensação será especial.

É o próprio vocalista dos Saravá, grupo formados por três jovens utentes dos serviços da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC), quem o admite.

"Pressão? Um pouco. Mas na altura tudo passa", confia o Bruno, desejoso de seguir o percurso dos seus ídolos, uma longa lista de onde fazem parte nomes como DJ Vibe, Pete Tha Zouk ou Santa Maria.

Em cinco anos, o que começou por ser pouco mais do que uma brincadeira de três jovens unidos pela paixão musical foi adquirindo progressiva autonomia: as solicitações para concertos deixaram de ser uma novidade e o sonho confesso do Pedro - "ter uma música nossa a passar na rádio", confidencia o teclista - parece mais perto do que nunca de ser concretizado. A tal ponto que o líder do projecto, o guitarrista Sérgio Silva, não esconde a surpresa pelo desenvolvimento musical notório dos seus pupilos.

"A evolução tem sido grande", reconhece o músico, que divide o percurso dos Saravá - nome que procura traduzir o lado festivo presente em todos os seus membros - em dois períodos distintos: até 2007, "quando as prioridades eram a aprendizagem e o desenvolvimento de competências", e dessa data até ao presente, "período de consolidação dos conhecimentos".

Tamanhos progressos não caíram subitamente do céu. O quarteto dedica a totalidade das segundas-feiras aos ensaios e, nas semanas dos concertos, duplica a dose. "É o meu dia preferido da semana", dispara o Jorge, responsável pelos sintetizadores.

O ambiente descontraído que domina os ensaios favorece os resultados, mas o director do grupo elogia também "a capacidade de concentração", requisito fundamental quando são necessárias longas horas para aprimorar as músicas. Se as preferências do Bruno e do Jorge recaem sobre as sonoridades mais dançáveis - com a house e o trance em destaque -, já o Pedro prefere escutar música ligeira, "seja portuguesa, francesa, italiana ou norte-americana". É a partir dessa mescla improvável que o som dos Saravá tem sido construído. No repertório do grupo encontram-se, lado a lado, géneros como hip-hop, funk, pop e rock. "Assim todos ficam satisfeitos", graceja o Pedro.

A evolução do projecto musical não tem passado à margem do presidente da APPC-Porto. Embora o reconhecimento dos Saravá seja apenas um dos vários triunfos da associação em áreas como o desporto, teatro ou dança, Abílio Cunha mostra-se entusiasmado com o sucesso do grupo. Não pelos dividendos artísticos que daí possam advir, mas porque "acabam por sair valorizados enquanto pessoas, aprendendo bastante".

Nem quando, há um par de meses, Nuno Almeida, director dos Estúdios Conquista, abordou a associação sobre a viabilidade de gravação de um disco, o jovem quarteto entrou em euforia. O orgulho ficou sobretudo a cargo dos familiares e dos amigos, porque os Saravá mal tiveram tempo para saborear o feito, dada a exigência de ultimar o disco num curto espaço de tempo.

Em poucas semanas, o Sérgio, o Pedro, o Jorge e o Bruno gravaram os seis temas de originais que compõem o homónimo disco de estreia. "Foi uma experiência fantástica", resume o Jorge, desejoso de voltar a entrar, num futuro próximo, no estúdio de gravação.

As eventuais dúvidas que o responsável discográfico pudesse ter sobre o acerto da aposta dissiparam-se mal presenciou os ensaios. Satisfeito, Nuno Almeida elogia o talento dos músicos e acredita que o disco pode ajudar, ainda que de forma ínfima, para o esbatimento dos preconceitos. "Ao contrário do que muitos pensam, as pessoas com limitações também podem contribuir para a sociedade", sentencia o director dos Estúdios Conquista, apostado em colocar o disco nos principais pontos de venda de todo o país.
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